sexta-feira, 17 de outubro de 2014

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Quatro cabeças pensam melhor do que uma, mas quatro bocas, minha filha, comem mais do que você pode imaginar. Agora imagine que elas não só comem mais do que você pode imaginar, mas comem mais do que você pode pagar. Muito mais. Comiam mais do que eu podia pagar. E alguém podia pagar pra elas. Mais do que isso, alguém pode pagar por elas, eu sei disso.
   E a dádiva de Deus que caiu sobre mim, de dar a luz a quatro lindas crianças, de repente se torna um estorvo, um castigo. Egoísta? Não! Acredite em mim! Eu só pensava nelas! Talvez doesse menos em mim porque a placa que assinalava a venda das minhas crianças não estava virada para mim. Eu não via o que estava escrito e podia imaginar qualquer coisa. Talvez doesse menos ainda nelas porque nem ler elas sabiam. O que eu sei é que doía muito em cada um que passava. Doía porque eram todos egoístas! Passavam e não pensavam em mim! Pensavam nelas mesmas, nas crianças delas. “Imagina se fosse meu filho! Deus me livre ser aquela mulher” eu praticamente conseguia ouvir o que estavam pensando. O padeiro, a vizinha, o músico.
   Até que, depois de alguns olhos que passaram pela cena, dois se fixaram na placa. Eram de uma criança. Da idade das minhas. Mas bem arrumada. Letrada. Ficou alguns longos segundos contemplando as manchas de tinta no pedaço de madeira a sua frente com um esforço admirável. A confusão era visível e enquanto deixavam de ser manchas de tinta pra tomar as formas das letras, o rosto da criança foi também tomando a forma do que estava escrito ali. A angústia cada segundo se apoderava mais do rosto dela se mesclando com a pena que já acompanhava a criança de outras cenas daquele dia que ela deve lembrar muito bem até hoje. Até que se esvaiu a confusão. A criança tinha então certeza do que acontecia lá e me julgava como minha mãe faria. Tudo se resumia a desprezo. Eu?Vergonha. Mas não se engane, passei o dia com vergonha. Aquela vergonha, porém, me tomou com tanta força que no mesmo momento levantei, tirei a placa de onde estava e a coloquei deitada no chão, virada para baixo. Voltei então às escadas onde meus filhos esperavam sem entender nada e comecei a conversar. Eles mereciam entender da mesma maneira que aquela criança entendeu. E eu precisava sair daquela situação.
Afinal, quatro cabeças pensam melhor do que uma…


Onde eu estava com a minha?

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