segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Passar lá

Queria passar todos os dias lá. Quem sabe não a encontrava de novo?

Mas da última vez, ela não estava. Achei estranho porque ela tinha confirmado o encontro. Mas, dessa vez, ela mandou um amigo. Não gostei muito do amigo dela. Eu não conseguia enxergá-lo muito bem, parece que a luz não se aplicava direito nele. Via de relance seus grandes olhos claros escondidos por trás de seu longo cabelo preto e no momento seguinte não via mais. Ele parecia um pouquinho maior e mais próximo a cada segundo e a cada passo - cada vez mais pesado e rápido - que eu dava ele aparecia em algum lugar diferente em torno de mim. Quando tomei coragem de falar, ele respondeu na lata: - A Felicidade? Ela costumava vir aqui, é? Não, não… Ela deve estar doente, sei lá… Mas fique tranquilo! O Medo vai estar sempre aqui e ali pra te fazer companhia!


Não sei se quero passar lá de novo.

domingo, 9 de novembro de 2014

Gangorra

Vem à noite, vai tomar banho, vem do lado, vai se ajeitando, vem para cá, vai para o antebraço, vem nuca no ombro, vai lábio nos ossos, vem visitar o resto, vai fechando os olhos, vem os dedos entre as costelas, vai o peso, vem o desconforto, vai se ajeitar, vem na cama que é melhor, vai mais para lá, vem sem a parte de cima, vai ser mais rápido, vem com ele (não tira!), vai ao fecho, vem com os dentes, vai com as mãos, vem o suspiro, vai se entortando, vem se entortando, vai o zíper, vem cabelo, vai para trás, vem mão, vai cabelo, vem unha, vai beijo, vem logo!, vai sem?, vem colocar, vai me ajudar?, vem..., vai, vem, vai, vem, vai com calma, vem a primeira, vai em seguida, vem assim, vai mais, vem sem medo, vai a segunda, vem mais uma, vai lá, vem descansar, vem por mais tempo, vai pedir ao meu chefe, vem mais vezes, vai duvidar?, vem cá outra vez.
        Vamos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Caixa de bombons

- Experimenta esse.
- Eu sou alérgico a nozes… Você sabe, né?
- Só experimenta!
- E eu também não gosto de chocolate branco…
- …
- Vou dar uma mordidinha… é… não é tão ruim…
- É claro que não!
- É bem gostoso na verdade… tem mais?
- Não.. acabou.. Talvez se você tivesse pego da primeira vez tivesse mais um pedaço.
- Você sabe que não é fácil confiar em você!
- Mas você devia! Você nunca ouviu a história da limonada? Se eu te dou limões…
- Não da pra fazer limonada com chocolate.
- Você entendeu. Agora.. cá entre nós, você não esperava esse sabor, né?
- Nossa, nem um pouco.. do que que é?
- Ah, infelizmente não posso dizer… Experimenta esse.

   A vida é como uma caixa de bombons: Você nunca sabe o que tem dentro. Afinal, qual seria a graça se soubesse?

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Entre para mais informações

Quatro cabeças pensam melhor do que uma, mas quatro bocas, minha filha, comem mais do que você pode imaginar. Agora imagine que elas não só comem mais do que você pode imaginar, mas comem mais do que você pode pagar. Muito mais. Comiam mais do que eu podia pagar. E alguém podia pagar pra elas. Mais do que isso, alguém pode pagar por elas, eu sei disso.
   E a dádiva de Deus que caiu sobre mim, de dar a luz a quatro lindas crianças, de repente se torna um estorvo, um castigo. Egoísta? Não! Acredite em mim! Eu só pensava nelas! Talvez doesse menos em mim porque a placa que assinalava a venda das minhas crianças não estava virada para mim. Eu não via o que estava escrito e podia imaginar qualquer coisa. Talvez doesse menos ainda nelas porque nem ler elas sabiam. O que eu sei é que doía muito em cada um que passava. Doía porque eram todos egoístas! Passavam e não pensavam em mim! Pensavam nelas mesmas, nas crianças delas. “Imagina se fosse meu filho! Deus me livre ser aquela mulher” eu praticamente conseguia ouvir o que estavam pensando. O padeiro, a vizinha, o músico.
   Até que, depois de alguns olhos que passaram pela cena, dois se fixaram na placa. Eram de uma criança. Da idade das minhas. Mas bem arrumada. Letrada. Ficou alguns longos segundos contemplando as manchas de tinta no pedaço de madeira a sua frente com um esforço admirável. A confusão era visível e enquanto deixavam de ser manchas de tinta pra tomar as formas das letras, o rosto da criança foi também tomando a forma do que estava escrito ali. A angústia cada segundo se apoderava mais do rosto dela se mesclando com a pena que já acompanhava a criança de outras cenas daquele dia que ela deve lembrar muito bem até hoje. Até que se esvaiu a confusão. A criança tinha então certeza do que acontecia lá e me julgava como minha mãe faria. Tudo se resumia a desprezo. Eu?Vergonha. Mas não se engane, passei o dia com vergonha. Aquela vergonha, porém, me tomou com tanta força que no mesmo momento levantei, tirei a placa de onde estava e a coloquei deitada no chão, virada para baixo. Voltei então às escadas onde meus filhos esperavam sem entender nada e comecei a conversar. Eles mereciam entender da mesma maneira que aquela criança entendeu. E eu precisava sair daquela situação.
Afinal, quatro cabeças pensam melhor do que uma…


Onde eu estava com a minha?

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Alto como as estrelas vermelhas do céu.

Existe todo um debate sobre quem criou o primeiro avião. Eu digo que foi Santos Dumont e, como agora sou eu quem está dizendo, então assumamos assim. Santos Dumont criou o primeiro avião, o 13-Bis. O povo brasileiro ficou fervoroso ao saber da notícia que vinha lá do outro lado do mar: Um brasileiro tinha conseguido voar. Pois bem, não era bem um voo longo ou alto, e ele certamente voltaria de barco para o Brasil.

De qualquer forma, voou. E foi o primeiro brasileiro a voar. Ao voltar pro Brasil, porém, algumas surpresas! Foi acusado de corrupção. Quer dizer, o João da esquina já teve exatamente aquela ideia e um dos fornecedores da madeira do 13-Bis tinha desviado dinheiro. E pronto, estourada a bomba, Santos Dumont estava preste a perder não só seu posto de primeiro homem a voar como também o posto de herói - que já é sabido que talvez nunca tenha sido, mas, certamente, voou. O João da esquina, que mostrara o seu projeto para todo o povo (da elite que sabia ler) ler, afirmava-se como furtado. Pena que não foi ele quem colocou o 45-Danete (seria esse o nome da engenhoca) no ar.

Santos Dumont pode ou não ser o herói, pode ou não ter sido o primeiro, pode ou não representar o heroísmo do povo brasileiro, pode ou não ser eleito nesse segundo turno. Não sou eu a julgar, afinal, quem viu o projeto do João no papel foi quem soube ler e quem viu Dumont voar foi quem soube ver.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Aquelas pequenas felicidades da vida


Hoje não era o meu dia...

   “Ô amigão! Põe 20 de álcool pra mim aqui por favor?”

   E enquanto ele segurava aqueles litros de dinheiro e energia escorrendo pra dentro do carro, seus olhos se concentravam nos números que subiam num ritmo só. 15,64, 18,67, 20. Exatamente 20. Não esboçou sorrisos. Eu sim. Sempre gostei dessas coisinhas…

   Não sei se era realmente uma tarefa muito complexa parar de encher o tanque de gasolina exatamente quando o contador chegasse no 20. Mas precisa ser? Já me deixaria feliz. Aquelas pequenas felicidades da vida.

   Saí do posto e passei no radar eletrônico com o limite de 40 Km/h: marcou 37.

   É, hoje não era o meu dia...

sábado, 4 de outubro de 2014

Sã loucas

   As sãs que me perdoem, mas loucura é fundamental. E também, quem sou eu pra contrariar Vinícius, né? Tem mais coisa que não pode faltar. Acontece que cada pessoa tem suas preferências… Mas sobre as loucas: Isso não tem discussão. Nada substitui a imprevisibilidade.

Aí então me contradigo quando peço uma loucura dentro dos padrões. Tem que ser doida, mas isso não. Tem que ser maluca, mas aquilo nunca! Acho que de vez em quando estou pedindo demais. Não era mais fácil ser eu o louco? Talvez seja…

   As loucas que me perdoem, mas sanidade é fundamental.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Meu segredo

      Tenho essa mania de inventar verdades absolutas e, finalmente, revelarei uma delas. Não me entenda mal, isso não é um ato de exibicionismo; muito pelo contrário. Digo porque creio ter descoberto, há algum tempo, algo que você, que está lendo, precisa saber. Digo na esperança que você absorva parte do que sei, parte da minha filosofia de vida. Ela rege como uma orquestra cada passo meu, seja ele o mais torto ou o mais seguro. Espero, agora, que você esteja pronto. Atenção para isso, que é importante! Se não estiver pronto, pare agora de ler ou não fará sentido eu te contar. Eu nunca estive pronto para o meu próprio segredo e, sinceramente, como isso é incômodo! É penoso ter o passo maior que a perna. Cansa. E o risco de tropeçar é muito maior. De qualquer forma, prepare-se, livre-se de todo mal e, se quiser, diga “amém!”. Eu vou dizer uma coisa incrível, não se assuste. É a minha verdade, daquelas mais relativas, daquelas que, dependendo da situação, vale mais mentir. Talvez você nem se importe e não posso controlar isso, feliz ou infelizmente. Talvez você se importe além do necessário e nisso, te previno: calma. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Não me achei

Ô animal!

Tá achando o quê?

Que foi? Tá ofendido? Porquê? Qual a sua grande diferença pra o que você considera um animal? Sim. Acredite. Você está preso, assim como uma vaquinha em direção ao seu abate, em mais um daqueles textos que diz como o Ser Humano é parecido com o animal. Isso se não for igual! Ou pior…

Quem não se imagina voando como os pássaros? Ou correndo como um Jaguar? Ahh… Eles queriam poder imaginar as coisas como o Ser Humano… Não tá fácil pra ninguém… Aquele momento que você para e contempla um pássaro que, como qualquer outro pássaro, voa, é também o momento que ele te contempla e se pudesse achar, acharia que queria ser como você, que, como qualquer outro Ser Humano, pensa. Bom… alguns pássaros não voam, não é?

No lugar de admirar o voo de um pássaro, há quem admire somente o pássaro e sua liberdade e seu não-pensar. Às vezes uma dádiva. Ser um animal passa a parecer a melhor coisa que poderia me acontecer. Preocupações, expectativas, quebras de expectativas, derrotas, conquistas. Tudo sumiria e no lugar entraria a liberdade inconsciente do vento batendo no seu rosto. Sentimento do qual de vez em quando temos o vislumbre.

E sabe o que eu acho de tudo isso? Acho que achamos demais, nos achamos demais e achamos os outros de menos. Acabamos achando o que não procuramos e não achando aquilo que tanto queremos.

E você? O que acha?


Seu animal.